quarta-feira, 9 de julho de 2008

The Day After

Segunda-feira, acordei com duas tábuas espessas e rijas em vez de pernas.
Não me iria levantar... Nem dava aulas nesse dia. Era o dia de folga.
Que bom, passaria a manhã na cama com o sentimento glorioso de mais um Jovemaio concluído!
Passados 10 segundos, o click que mudou o meu dia, o meu ano, a minha cabeça, um pouco da minha vida no fundo!
Eu durmo pouco, deito-me cedo, adormeço com facilidade, mas por volta das seis da manhã, no máximo, acordo e não durmo mais. Isto quando não acordo mais cedo e me ponho a pensar em tudo o que a noite escura se lembra de me pôr a pensar.
Sem perceber como nem porquê, nem consigo explicar a ninguém o que me aconteceu, levantei-me, vesti o calção, a t-shirt da prova, calcei-me, bebi um copo de água e saí de casa para fazer 40 minutos muito devagar, com as bolhas a latejar, a escorrerem aquele líquido que criam dentro, mas com as pernas a responderem e pedirem para se mexer.
Cheguei a casa feliz, como não me sentia há muito. Tinha conseguido. A partir dali era capaz de mais. Tive a certeza. Naquele momento!
É algo de muito esquisito, mas também especial, sentirmos as primeiras vezes em que o corpo, mais especificamente uma parte do cérebro, nos pede para nos levantarmos e colocarmos um passo à frente do outro, sem complicações, sem ligar ao sol, à chuva, ao vento, aos cães, aos carros, à noite...
É algo que não se consegue explicar a quem não corre, a quem não gosta de correr, mas que acontece e PODE acontecer a qualquer um!
E eu, que detestava o acto solitário que é correr, o gesto mecânico que preconiza o acto da corrida, sou, felizmente para mim, a prova de que correr é especial.

XXV Jovemaio



13 de Maio 2007
Lá estava eu, com os meus Nike qualquer coisa, as minhas meias de algodão, bem grossas e uma disposição intransponível de bater toda a concorrência - que se resumia a uma rapariga de 35 anos, com 3 filhos - sem apelo nem agravo. Era muita picanha em jogo, muito franguinho assado, muitas Minis geladas. Eu e os meus amigos machos engendrámos um plano infalível: um cansava a Célia, puxava por ela e algum dos outros tentava ficar à frente dela. Mas qual??? Eu não fui capaz, claro.
Acabei a prova, à frente da velhota de 71 anos, mas pelo menos dois minutos atrás da minha amiga.
Fiz a fantástica marca de 56.40m, recorde pessoal da minha carreira de 13 dias como meio-fundista.
Resultado: um dos rapazes chegou 10 metros à frente da nossa amiga, aposta ganha no colectivo.
Resultado individual: a vergonha... bolhas diversas em 3 partes distintas dos pés, o tendão de Aquiles feito pedra, sofrimento geral em todas as partes do meu gordo corpo. É a única data do ano em que costumo usar a hidro-massagem da minha casa de banho. Boa compra...
Continuava a pesar 73 quilinhos...
Depois do churrasco, se calhar, pesava um bocadinho mais...

Eu, em Estremoz, depois de almoçar no São Rosas, quando tinha vergonha de me ver nu...

A estratégia

2 de Maio 2007
Acordei e decidi começar um fantástico programa de treino secreto e individual: fazer gradualmente o percurso da prova, aumentando diariamente um km...
Neste dia fiz 18 minutos. E percorri 2,4 Kms...
Regressei a casa e chamei alguns nomes a mim próprio.Decidi que tinha de parar uns dias, tinha sido um treino muito violento... Estava convencido que tinha sido uma loucura exagerar logo no primeiro dia.
E eu até não me importo nada de cozinhar, de ter o pessoal cá em casa...
Se calhar era melhor esquecer a aposta, ia tentar chegar ao fim sem sofrer muito, sem treinos, como sempre.
Se ao menos corresse com uma bola à frente...

3 de Maio 2007
Acordei e fiz tudo de novo. Com o mesmo sofrimento, pesadão, a arrastar-me, balofo mesmo!

4 de Maio 2007
Acordei e fiz tudo de novo, mas fui mais longe. Fiz quase meia hora!!! "Maluco", pensei.
Estava preparado, já tinha feito cerca de 4 kms. Para sofrer, mais valia sofrer só no dia da prova...

E assim continuei, até dia 10.
Sem ninguém saber.
Estava preparadíssimo, seria a revelação da prova...

Como tudo começou...

1de Maio, 2007. A aposta...
A cavaqueira e o impropério do costume em casa já não sei de quem... A minha comadre, frequentadora assídua do Holmes Place, fanática por RPM e Body Combat na altura, lançou o desafio: "Pago um almoço se algum de vocês(homens) ficar à minha frente no Jovemaio - a prova de 10 kms anual do nosso bairro, organizada por essa ilustre instituição, o Águias Unidas do Fanqueiro - que frequentamos desde crianças, desde os bailes com slows, com apalpões, com beijos roubados, com as mães a guardar as filhas... Bons tempos!
Claro que aceitámos a aposta. Ela sempre foi fisiologicamente uma excelente atleta em potência, naturalmente. Corria sem esforço. Já eu, sempre fiz esta prova, mas a maior parte das vezes, depois de uma noite de copos quando era "vivo", depois de uma jantarada quando já era casado... mas participámos sempre, 5 ou 6 amigos de infância, colecciono as T-shirts das 26 edições da prova mais antiga do concelho do Seixal. O resultado era sempre o mesmo: bolhas várias, 3 ou 4 dias com dificuldades a andar e chegava sempre lado a lado com uma velhota de 70 anos que antecedia a ambulância e o carro-vassoura. Mas cheguei sempre ao fim. Era a minha vitória.
O ano passado, com esta aposta, as coisas mudavam de figura, o estímulo altíssimo, um churrasco sem eu ter de cozinhar, só sentar, comer e beber... Haveria motivação mais forte?
Pesava então 73 kgs, em todo o esplendor do meu metro e sessenta e sete...